sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O labirinto

A garota estava andando pelas ruas frias e úmidas do centro da cidade. Às sete e meia da manhã ela já andava. Gostava de observar o movimento das pessoas que passavam apressadas para o trabalho. Ela porém não tinha pressa. Há muito tempo não andava sem rumo, sem direção definida. Cortava pelas ruas sempre parando em cada esquina para decidir pra que lado seguir. Os camelôs já estavam se preparando para mais um dia de batalha. As lanchonetes já estavam abertas e abarrotadas de gente faminta. Os prédios comerciais começavam sua jornada empresarial. A cidade iniciava seu movimento e nunca parava. A garota também não. Somente nas esquinas, para decidir qual direção tomar.

Muitas lojas ainda estavam fechadas e isso a decepcionava. Ela queria movimento, queria ver gente. Parou entorpecida na frente da escola de música, mas não ouviu nenhum som vindo de lá. Passou por um grupo de homens que a olharam com malícia. Ela era bonita e isso chamava atenção onde quer que ela fosse. Os poucos transeuntes dos lugares ainda desertos da cidade olhavam para ela. Isso a irritava. Não queria ser vista, queria ver. Quando chegou ao largo principal, finalmente ouviu vozes. Um jornaleiro anunciava ao microfone seus produtos. Uma mulher mal vestida cantarolava uma canção religiosa, desafinando a plenos pulmões. O ruído das pessoas subindo e descendo as escadas do metrô aumentava. Veículos passavam zunindo cada vez mais alto. E a garota observava tudo.

Adorava tipos. Analisava cada um minuciosamente, como se fossem seu estranho objeto de estudo. Às vezes nem parecia pertencer àquela cidade, pois andava como um turista perdido, girando a cabeça o tempo inteiro para todos as direções como se quisesse captar cada cor, cada indivíduo, cada movimento. Como quem procura onde está.

Sempre pareceu estranho para ela que ninguém a notasse da mesma forma. Apesar de ser bonita e atrair naturalmente atenção pelo seu tipo físico, as pessoas não olhavam com cuidado. Ela não julgava impossível a análise, era mais ou menos fácil de ler. No entanto, ninguém a lia. Mas ela lia a todos. A balança das percepções estava totalmente desequilibrada. Sempre fora assim.

Ela resolveu fazer o caminho de volta. Não queria mais ver ninguém. Mudava de idéia muito facilmente, quase como uma criança. A instabilidade a fazia parecer até mesmo para os mais desatentos um labirinto de paredes móveis. Essas paredes mudavam de posição continuamente para despistar qualquer aventureiro desavisado que resolvesse adentrar no seu mundo. Essa era a regra principal, iludir. Ela fazia isso o tempo inteiro, mesmo sem se dar conta disso. Era uma ilusionista nata. Os poucos que percebiam a armadilha logo escapuliam. E ela ficava só.

Era estranha, mas de uma estranheza atraente. Tinha o dom de atrair as pessoas para si, mas sempre estava sozinha. Ela era muito complicada. Complicada demais. Sentia-se deslocada, quando na verdade os deslocados sempre foram os outros.

Ela agora andava pelas ruas do centro da cidade com aquele ar de alguém que contou uma piada que não fez ninguém rir. Ela era essa piada. Pois os parcos risos que conseguia arrancar da platéia eram apenas superficiais. Tudo em si era muito superficial. E ela detestava isso com todas as suas forças. Amava detectar os detalhes mais profundos de cada ser. Era seu jogo inconsciente. Observava, atraía e iludia. Ela se odiaria se soubesse que fazia isso. Mas ela fazia.

Coisa interessante é que ela raramente pedia permissão. Fazia as coisas que lhe desse vontade. E somente essas. Ninguém poderia forçá-la a nada que não quisesse de verdade. Ninguém poderia fazê-la mudar de idéia se ela não estivesse disposta a isso, mesmo que ela tendesse a mudar de idéia facilmente. Ela só fazia o que queria.

E naquele momento ela mudou de direção novamente pois estava farta daquela caminhada sem rumo. O labirinto estava perdido em seu próprio labirinto.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A ilha

A maioria das pessoas que convivem comigo percebem bem rápido que o meu lado emocional é totalmente instável, muito semelhante a uma montanha russa. Às vezes estou no alto. Às vezes embaixo. Muitas vezes fazendo loopings, outras nos espirais. Bem, passada a rápida crise existencial, ontem eu estava pensando na minha sorte. Eu realmente não tenho do que me queixar. Alguns acreditam que a felicidade é resultado do agir da poderosa mão de Deus, outros do braço do destino, outros ainda, do espírito do mundo. O fato é que a vida me presenteou com a vida. Uma vida que eu não diria perfeita, mas quase.

Estava dando uma olhada no meu blog e percebi que aqui tem muito pouca coisa sobre mim. Falo dos outros, de histórias inventadas, de política, de futebol e coisas atuais e esqueço de falar do que é fundamental: eu mesma. Para começar, um pouco da minha história. Sou nascida e criada numa família de classe média, com pais amorosos e presentes. Desde pequena sempre me deram tudo que eu precisava, mas tiveram o cuidado de não me dar todas as coisas que eu queria. Hoje agradeço a eles por isso.

Meu pai é uma pessoa de espírito prático e com isso me ensinou muita coisa. Tanta coisa que se eu for tentar me lembrar de qualquer uma agora não conseguiria. Na verdade, eu só me lembro das suas palavras quando eu já estou vivendo a situação. Considero meu pai um filósofo funcional. Sempre que pode, ele solta um de seus ensinamentos, seja qual for o momento. Ele é engraçado. Adoro discutir política com ele, porque divergimos muito. Mas nem sempre. Às vezes eu acabo concordando com as opiniões dele. Meu companheiro de pesca, sempre acreditou em mim. Quando eu decidi jogar volei ele acreditou que eu podia. Quando eu decidi cursar história, ele acreditou de novo, mesmo achando que eu era inteligente o suficiente para ter uma profissão "melhor". Investiu o quanto pôde na minha educação e pagou todos os cursos loucos que eu já quis fazer. Me criou como um menino, sem frescuras e futilidades desnecessárias. Me levava ao Maracanã pra ver o mengão jogar. Quando vamos acampar, ele sempre esquece o travesseiro e acaba puxando o meu para si. Ele rouba as batatas-fritas do meu prato quando almoçamos juntos. Ele troca de canal quando eu estou assistindo a novela. E muitas vezes ele deixou de comprar coisas para si próprio, só para me beneficiar. No passado tivemos problemas, hoje estamos muito melhores.

Minha mãe é uma pessoa complicada de se conviver. Eu sei bem porque. Somos muito parecidas e quando duas personalidades fortes se encontram a briga muitas vezes é inevitável. Mas eu me lembro bem de como ela sempre se preocupou comigo. Foi por causa dela que eu aprendi a ler tão cedo. Debaixo de pancada, mas pelo menos aprendi. Nós sempre passeávamos juntas e eu adorava sair com a mamãe, me arrumava que nem uma mocinha. Às vezes ela é um pouco egoísta e nós trocamos acusações. Mas quando tenho pesadelos a noite é pra cama dela que eu vou. Ela já sabe que sou eu entrando no quarto, após mais um sonho ruim. E sempre compreende que só desse jeito eu consigo dormir. Perto dela me sinto protegida. Ela sempre foi a mais preocupada em me dar o melhor. A melhor roupa, o melhor sapato, o melhor material escolar, a melhor comida, o melhor quarto, enfim. Eu sempre tive tudo e foi graças a minha mãe. Ela me deu a vida e me arrependo de muitas coisas que aconteceram entre nós.

Minha irmã é muito diferente de mim. Ela está atravessando a adolescência e eu me preocupo com quem ela vai ser. Lembro de como eu pedi aos meus pais que ela existisse. Eu queria uma amiga para brincar, pois me sentia só. Eu odiava ser filha única. Lembro muito bem da primeira vez que a vi. Minha vó me levou na maternidade e lá me proibiram de entrar, porque eu era muito pequena. Então eu me soltei da minha vó e fui correndo para a frente do prédio. Gritei e gritei, fiz um escândalo até que a minha mãe ouvisse e trouxesse aquela coisinha branca e loira pra janela. Era minha irmã, que eu via pela primeira vez. Lembro também de como a gente brincava de "A lista de Schindler". A gente se enrolava no lençol, pegava as bonecas e fingia que estava fugindo dos nazistas - eu nunca disse que éramos crianças convencionais - a gente brincava também de guerra de trincheira, fazendo os ursinhos de refém com a faca de pão. Sempre brigamos por brinquedos e hoje em dia brigamos por coisas fúteis, as mais fúteis possíveis. Eu a defendia na escola, mesmo que isso me custasse ser saco de pancadas dos grandalhões. Quando a minha cama quebrou nós dormimos juntas até que comprassem outra. Hoje em dia isso seria inviável, pois somos enormes. Vivemos criticando uma a outra. Mas, de minha parte, não faço por mal, pois quero que ela se torne uma pessoa incomum e não apenas mais uma na multidão. Um dia ela fará a diferença.

Agora estamos todos separados. Meu pai de um lado, a gente de outro. Mesmo assim estamos bem. A gente sempre acaba se acostumando à certas situações que a vida nos impõe. A vida é uma ditadora impiedosa. Ela estabelece regras e situações, cobra altos tributos. E mesmo assim sai impune. Nada podemos fazer. Ou nos adaptamos, ou somos tragados. Um certo alguém me disse que não existe felicidade completa, apenas momentos. A vida se resumiria a pequenas ilhas dessa felicidade perdidas num grande oceano. Eu, no entanto, preferia que nunca tivesse precisado nadar nesse mar. Preferia nem ter colocado meus pés na água. Antes, escolho ser náufraga. Porque a maior e mais segura ilha de felicidade sempre foi e sempre será minha família. Dela não quero me ausentar jamais.

OBS: E não me preocupo em ser piegas. Com medo de ser piegas já deixei de dizer muitas coisas a muita gente querida.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Uma carta insolente

Eu sempre fui uma pessoa estranha. Algumas vezes, enquanto meus coleguinhas estavam brincando no play eu ficava em casa lendo. Hoje quando remexia nos meus papéis velhos achei o rascunho de uma carta que eu escrevi a alguns anos para o José Saramago. Podem rir, eu sei que pessoas normais não escrevem cartas para lendas vivas (agora não mais) da literatura mundial. Só eu tive essa petulância. Mas pelo que eu me lembro eu li em algum lugar um artigo onde ele tentava provar a inutilidade da natureza e resolvi responder. Eis aí a tal carta:

Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2004.

Prezado Senhor José Saramago,

Li seu artigo e receio falar sobre a incoerência da vossa concepção antropocêntrica, no entanto, isso se faz necessário.
De acordo com os preceitos científicos, o universo, e todos os outros elementos do cosmo, já existiam muito antes de o primeiro homem surgir, o que denota a total independência da natureza em relação ao ser humano. Porém, a sobrevivência deste, está intimamente relacionada ao aproveitamento dos recursos que o meio ambiente oferece.
Desde os seus primórdios, a humanidade tem utilizado diversos meios naturais para garantir sua sobrevivência. A agricultura, a pecuária e a extração de recursos minerais, são apenas alguns exemplos da nossa total subordinação à mãe natureza.
Precisamos dela para o vestuário, alimentação, fabricação de remédios, moradias, e até mesmo para o entretenimento, pois muitas vezes viajamos com o intuito de conhecer as belezas naturais de um determinado local.
Ao passo que, se o homem não existisse, o meio ambiente continuaria a ocupar seu lugar, estando até em melhor situação.
O pensamento de Francis Bacon estava voltado para a idéia de que a natureza deve beneficiar o homem, no entanto, até mesmo o filósofo inglês admitiu que o homem precisa dela para serví-lo.
Espero que vossa senhoria reflita sobre este assunto e chegue a uma conclusão plausível nesse sentido.

Alery Correa

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Pronta pra sair

Me lembro de quando eu tinha só 6 anos e pensava em fugir de casa. Pegava a lancheira do colégio, meus brinquedos preferidos e colocava tudo dentro da mochila. Ameaçava sair pelo portão, mas nunca saí. Eu sempre parava antes e pensava em como poderia sobreviver só com os meus brinquedos. O meu lanche logo acabaria e só me restariam os brinquedos. Nessa época eu já era extremamente racional... Eu também tinha medo do que havia lá fora. Tinha medo do desconhecido. Então eu sempre desistia do plano. Voltava para meu quarto e guardava tudo dentro do baú, sem que ninguém ao menos desconfiasse de minhas reais intenções. E durante muito tempo eu vivi assim, só conhecia o quintal da minha casa.

Olhando agora acho que talvez isso não tenha mudado. Continuo conhecendo apenas o quintal. Jamais ultrapassei o portão. Continuo postada diante dele, com o rosto espremido entre as grades, vendo a vida acontecer lá fora. Com a mochila nas costas, está tudo pronto pra partir. Só falta a coragem.

Eu sempre sonhava com o que eu seria quando crescesse. Eu queria ser importante, alguém grande, que realmente valesse a pena ser lembrada. Mas reavaliando agora, essas espectativas de alguma forma se desprenderam e eu nem sei dizer em que momento isso aconteceu. Só sei explicar quem eu já fui. Mas não tenho idéia de quem sou ou de quem eu quero ser agora. Que conclusões tiro disso? Tudo, absolutamente tudo esvaece. Foi assim com os meus sonhos.

Algumas das minhas frustrações provém do fato de eu não saber meu lugar. Sempre me senti deslocada no mundo, como se não precisasse estar aqui. Como se não fizesse questão nenhuma disso. Não tenho nenhum dom especial. Nenhuma habilidade extraordinária que possa ser útil a humanidade. Só sei ler. Sou uma grande leitora que devora livro após livro na esperança de absorver algum traço interessante de suas histórias para minha própria vida. Desesperadamente desejosa de encarnar esses personagens, sejam eles quais forem. Aceitaria ser o mais miserável deles, desde que sua história produzisse reviravoltas na minha. E quando termino de ler um livro, ao invés de me sentir satisfeita pela distração, sinto-me engolida por um vazio sem igual. Transformei os livros em escudos e continuo me escondendo atrás deles como se a minha existência realmente dependesse disso.

Sempre que penso nisso percebo que talvez essa não seja eu. Talvez eu não queira me basear somente nas histórias alheias. Eu preciso de ferramentas para escrever minha própria história. Preciso de um espelho mágico para saber quem eu realmente sou. Sem essa informação eu jamais avançarei o portão. Jamais encontrarei o caminho para minha própria vida.

Não posso mais viver assim. As vezes sinto-me sufocada sem conseguir respirar. Não posso mais sorrir sem sentir vontade ou só por estar acostumada à isso. Não posso me prender à antigas tradições que me consomem lentamente. Talvez ninguém esteja interessado nisso, mas vivi presa muito tempo e agora desejo sair. Agora estou aqui, mais uma vez em frente ao portão, mas dessa vez vou embora. Estou gritando e chutando para que me deixem ir. Se ninguém abrir eu pularei o muro. E se este for alto demais, cavarei por baixo. Não me importa se lá fora há coisas ruins. Eu quero mesmo cair. Mas também quero me levantar. Afinal, são nossas quedas que produzem as alavancas.

E espero sinceramente que antes de encontrar o caminho certo eu possa vaguear um pouco por aqueles mais duvidosos. Porque muito pior do que viver confinada em um espaço restrito é perder a aventura das incertezas diárias.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os dementes


Vivo em uma sociedade pobre. E não estou me referindo a pobreza de dinheiro, que impede que um menino coma um pedaço de pão. Mas sim à pobreza que permeia a música , a literatura, o teatro, o cinema... enfim, a arte e a cultura. A cruel e genuína pobreza, ou melhor, a mais completa e asfixiante miséria de espírito.

Fico seriamente preocupada com os jovens dessa sociedade, apesar de ser tão jovem quanto eles. Me espanta o fato de ninguém mais falar ou escrever o que pensa. Esses indivíduos têm preguiça de pensar e de agir por conta própria e por isso, preferem as fórmulas prontas. Eu me assusto de ver como a sociedade tem sido palco de um verdadeiro teatro de dementes e de como a arte perdeu seu espaço na vida das pessoas.

Um belo dia acordei e o mundo estava assim. Olhei pela janela e lá estavam eles. Liguei a televisão e, surpresa, lá estavam eles de novo. Mas foi somente quando sintonizei o rádio que percebi o tamanho do problema: eles, os medíocres, resolveram formar bandas. É doloroso assistir toda uma geração seguir ladeira abaixo, culturalmente falando. Pra quem cresceu ouvindo Capital Inicial, Legião Urbana e Cazuza, o cenário musical jovem atual é vergonhoso. Pseudo-bandas como Cine, Restart e Nxzero fazem a cabeça da juventude de hoje.

Se antigamente as multidões se reuniam para mudar o mundo, hoje em dia elas se arrastam para assistir aos shows de grupos de rap e funk extremamente machistas, como por exemplo o “Bonde do Stronda”. Enquanto isso, toda uma parte da música brasileira de qualidade é deixada de lado. É lamentável que um dos movimentos musicais mais fortes dentro de um país seja aquele que reduz mulheres a bonecas infláveis e objetos descartáveis.

Confesso, a primeira vez que assisti esses caras na tv achei que eles estavam de brincadeira. Que era uma pegadinha, sei lá, algo do tipo. Não podia ser sério. Infelizmente, pra meu desespero, era sério. E não se trata só de música ruim. Há todo um estilo de vida por trás. Acho que eles estão tentando se diferenciar. Mas é engraçado que quando querem "ser diferentes" os adolescentes acabam se comportando todos iguais. Coisa esquisita.

A música é só o ponto de partida. O caráter blasé está presente na juventude atual como nunca esteve antes. Alguns deles até tentam parecer cult fingindo que gostam de coisas antigas e bizarras quando na verdade são vazios. Aliás, até isso está na moda agora. Ser nerd tornou-se algo sexy e desejável. Eles não pensam sozinhos e só falam o que os outros querem ouvir. Não tem nada na cabeça a não ser escova definitiva e boné Von dutch. Só leram Crepúsculo, Harry Potter e O código da Vinci. De poesia só conhecem uma frase ou outra do Fernando Pessoa pra colocar no orkut. Não conhecem os clássicos e nem sentem vergonha por isso. Não assistiram Casa Blanca e muito menos E o vento levou. Seu lugar preferido é sempre o shopping ou a praia. Fúteis, levianos, arrogantes, mornos e semi-analfabetos, só assistem MTV e Malhação, como se a vida se resumisse aos dramas idiotas e repetitivos vividos pelos personagens. Como se isso fosse o axioma universal.

Hoje mesmo, bem do meu lado, enquanto eu lia Dostoiévski reparei que a minha irmã caçula estava lendo revista Caras. E as comparações são inevitáveis: enquanto eu escuto Edith Piaf e Ray Charles ela prefere Justin Bieber. Enquanto eu frequento a Biblioteca Nacional ela vai ao cinema com as amigas assistir Shrek. Enquanto eu acompanho os documentários do Natgeo ela vê Disney Channel pra saber o que a Hannah Montana está fazendo de bom. Enquanto eu estudo francês ela finge que fala inglês. Sem personalidade. Sem verdade. Sem paixão. Sem arte.

Não consigo entender porque as pessoas querem ser assim. Porque todos querem ser iguais, ou querem ser diferentes sendo iguais. Emos, coloridos, nerds, patricinhas, não importa. Eles são assim por convicção ou só querem chamar atenção numa sociedade onde impera o medo do anonimato? Essa despersonalização, essa massificação poderia ser só modismo, uma fase como dizem alguns. O fato é que estamos assistindo ao sepultamento das identidades pessoais dos jovens. Eles não sabem quem são, não sabem seu lugar no mundo e não questionam o status quo. Seguem assim, imitando uns aos outros, reproduzindo discursos prontos e atitudes previamente estabelecidas, como se essa fosse a única maneira de existir. Preferem os chavões, os paradigmas e os lugares comuns, simplesmente por esse ser o caminho mais fácil.

E num mundo onde absolutamente todos os buracos são redondos, ninguém mais quer ser o pino quadrado desafiador. Ninguém tem coragem de ser ousado. Ninguém mais é autêntico. Ninguém se atreve a perseguir a originalidade.

Definitivamente, ninguém mais deseja ser o estranho no ninho. Mesmo que isso custe NÃO SER VOCÊ MESMO.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O maroto

Ele não podia evitar, era completamente louco por ela. Tinha um desejo mais forte que a própria razão. Não podia resistir ao seu corpo delgado, nem à sua pele cálida e macia. Ela, por sua vez, não passava bem. Estava arrependida por ter destruído um casamento. Mas agora era tarde, não havia como consertar os erros do passado.

Ela queria conversar seriamente, tinha algo importante a dizer e tentava escolher as palavras certas enquanto o libertino tinha os pensamentos voltados para um motel a duas quadras dali. Mas ela não iria, não faria de novo. Nunca mais se entregaria a ele, não podia, pois bastou vê-lo para que a lembrança daquele fatídico dia retornasse à sua memória, como num filme em câmera lenta. Ela se lembrava de como se opôs àquela idéia insana, achara muito arriscado apesar de haver retribuído às investidas do cunhado algumas vezes. Ele argumentou que seria emocionante e lhe assegurou que sua esposa só chegaria em casa às seis, e, durante a tarde inteira, o apartamento em Botafogo estaria vazio. Um perfeito ninho de amor secreto.

A esposa enganada caminhava na calçada a passos largos quando se sucedeu a desventura. Um tropeção, um salto quebrado, um gritinho agudo, um tombo. Estava atrasada, mas agora precisava voltar em casa para trocar de sapatos. Entrou descalça no elevador do prédio. Sentia uma dor terrível no tornozelo, mas uma dor ainda mais aguda estava por vir.

A amante entrou em choque quando viu sua irmã parada na soleira da porta do quarto. Nenhuma das duas pareciam acreditar no que via. A mulher traída permaneceu inerte, ainda trazia na mão esquerda o par da sandália com o salto arrancado. Os olhos marejados indicavam tristeza e decepção, porém a boca estava crispada em espasmo e os dentes fortemente cerrados contrastavam com sua postura apática. Fora um golpe muito duro para ela.

Depois deste episódio, decidiu passar sozinha algum tempo na Califórnia. Quando retornasse, pensava em conversar com o marido para que pudessem decidir de vez o futuro da relação. Para a irmã, ela reservou todo desprezo que havia dentro de si, pois acreditava que seu querido fora vítima de uma cunhada despudorada e marota.

Apesar disso, a pobre coitada já estava arrependida do mal que havia causado, e agora estava ali, novamente diante daquele homem. Não se viam desde o dia do incidente. Ele a olhava malicioso, mas ela apenas abria e fechava a boca, como se, na última hora, desistisse do que ia falar. Precisava contar que estava grávida, mas tinha medo da reação dele. Ela não queria ter a criança, não queria gerar um bastardo. Já tinha decidido fazer um aborto, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar a clínica e estava disposta a implorar que ele pagasse. Acabou contando tudo de uma vez. De início, ele ficou nervoso, mas logo se acalmou. Disse que a criança nasceria e que seria seu filho, pois era seu sonho. Ele lhe daria dinheiro para que sumisse de sua vida e nunca mais os procurasse.

Passados alguns meses, a criança nasceu e foi entregue ao pai, conforme o combinado. A mãe resolveu começar uma vida nova e mudar-se para a Colômbia , onde conheceu um poderoso traficante de armas. Ela vive bem e o visita na penitenciária aos domingos. A esposa voltou do seu exílio e retomou o casamento assim que o marido lhe contou que havia adotado um bebê. Ela não podia ter filhos e por isso ficou profundamente comovida com o gesto tão puro e nobre do marido.

Passaram-se alguns anos e hoje ela ama o Bruninho como se fosse seu filho. Mas sempre que o menino sorri, ou até mesmo quando faz pirraça, alguns traços familiares ficam evidentes, e ela, no canto mais profundo de sua mente, pensa consigo mesma:

- "Como se parece com a danada da tia!"

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um cão apenas

Doente, cansado e abatido, o cão ia vagando pela calçada, meio cambaleante. Movia-se dotado e consciente de todos os seus sentidos, porém, sem poder enxergar as cores. Andava, somente por andar, sem saber para onde iria. As patas ossudas não tinham seu compasso natural; revezavam-se, e uma de cada vez, levavam o cão em frente, entre trêmulas pausas. Ninguém olhava. Ninguém podia ouvir que ele grunhia baixinho.

Enfim, já sem forças para caminhar, ele parou. Olhava para o alto com as pupilas dilatadas e o focinho úmido; incapaz de recompor-se ao que já fora um dia. Encostou-se no muro e deitou-se no chão sujo. Uma última olhada em volta e uma névoa sobreveio sobre ele, envolvendo-o e aliviando toda a dor. Depois disso expirou, levando consigo todas as suas lembranças de cachorro.

O corpo esfriou. Um mendigo aproximou-se e o cobriu com um pedaço de trapo que trazia envolto em si. O homem ia seguir, mas parou, pensando. Resolveu descobrir o cão, retomando o pano e tornando a se enrolar nele. E disse:

- Era um cão apenas.

E foi embora.

domingo, 11 de julho de 2010

Poetamento

Momento poético. Resolvi publicar algumas poesias minhas apesar de não gostar muito de escrever nesse gênero. Submeto a vocês a vergonha dos meu sentimentos. Voilá!


Portão aberto

Dia triste infeliz
levei um tempo pra recuperar
a casa que eu tanto gostava
de repente era maldita
porém seu portão sempre esteve aberto
bastava empurrar,
bastava subir os degraus da escada
atravessar sua porta
seria como deixar tudo pra trás
esquecer as mágoas
como abrir as janelas e deixar a poeira sair
e a luz iluminar os cantos escuros
era só deixar a emoção fluir
tocar de novo aquelas mãos
ouvir de novo as histórias
me embalar no ritmo das canções de ninar
e nunca esquecer que o portão
sempre vai estar aberto
basta empurrar.


Soneto informativo

Só quero que saiba,
que acordei pensando em você
e que agora ainda
continuo pensando.

E que nunca na vida
tive um motivo tão forte
pra gostar de viver.
Se tive, quando?

Pois só você tem o poder
de me fazer sentir bem,
sem precisar sofrer

Mas sem você ao meu lado
algum problema tem,
e que graça pode haver?


Um só instante

Escuta minha lira singela
no enlevo de um soneto arrojado
muito me enerva ter contido
o beijo antes tão desejado

Ao ver passar esta vida ingrata
me comprazo e olho pra trás
pro devaneio de vidas fadadas
a encontrarem o amor jamais

E essa leve paixão delirante
levou embora minha alegria
e com ela também seu amante

Que não sabe amar, nem soube antes
quem me dera ele ter aprendido
apenas por um só instante.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A raiva

Você já teve raiva? Muita, muita raiva? Raiva de verdade a ponto de querer, sei lá, dar um chute na cara de uma velhinha de 97 anos? Pois é, eu senti toda essa raiva. Culpa do banco Itaú. Quem já teve a oportunidade de se aborrecer com o atendimento desse banco sabe do que estou falando. O caso é o seguinte:

Abri minha conta há uns quatro meses atrás e solicitei um cartão de crédito. Até aí, tudo perfeitamente normal. Só que quando chegou o tal cartão veio no nome de "Alerj". Fiquei nervosa. Sabe, muita gente erra meu nome. Eu sempre tive pavor de primeiro dia de aula. Porque? O professor sempre chamava meu nome errado e as outras criancinhas riam de mim. Já me chamaram de "aléri", "alibi", "aliri" e até "alien". Tudo bem, "Alien" eu posso aguentar, mas "alerj", essa era nova. Respirei fundo e fui reclamar no banco. Eu disse à atendente que queria um cartão novo, e ela quis saber porque. Eu respondi calmamente que nunca tinha visto ninguém chamado Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. A mulher mexeu no computador e disse que um cartão novo chegaria na minha casa em no máximo 7 dias.

Os tais 7 dias viraram 3 meses e esta semana resolvi voltar ao banco para reclamar novamente. Entrei em uma fila quilométrica e quando consegui chegar ao guichê a mesma mulher de antes me atendeu. Eu perguntei se ela se lembrava de mim. Ela disse que não. Raiva. Tive que explicar o problema para a mesma pessoa mais uma vez. Ela pediu o número da minha conta, coisa que não sei e nem tenho anotado. Eu disse que não tinha a droga do número e ela insistiu que só poderia rastrear o cartão perdido com o tal número. Aí fiquei com muita, muita raiva. Aquele tipo de raiva que eu descrevi ali no começo do post. Contei até dez e falei: "Minha filha, o homem já foi à lua. Ele já clonou uma ovelha. Então não é possível que você não consiga apertar um simples botão pra resolver meu problema!" E ela disse que não era possível. Já muito nervosa, fui orientada a procurar um gerente para saber o bendito número.

Depois de esperar em outra fila, consegui falar com o gerente e tentei explicar à ele que de acordo com a lógica do capitalismo neo-liberal o banco estava perdendo dinheiro ao deixar de me concerder um simples cartão de crédito. Sem um cartão eu não poderia fazer compras e sem compras eles não poderiam me cobrar juros. E sem juros não haveria LUCRO. E, após pronunciar a palavra mágica, quase como um milagre, imediatamente, ele me informou o tal número. A linguagem do dinheiro é como o inglês: todo mundo têm que saber falar e quem não souber tá ferrado nessa vida.

Enfrentei a primeira fila mais uma vez para que, quando eu chegasse novamente no mesmo guichê, com a mesma atendente, ela me entregasse o cartão que já estava lá. Felicidade, contentamento. Mas por pouco tempo. Ao ler meu "nome" no cartão percebi que eles haviam trocado as sílabas e, ao invés de Alery, escreveram Arely.

Perdi minha aula e meu tempo a troco de nada.

Moral da história: Itaú, o banco feito para (foder) você.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

ZEBRAsileira


Os holandeses não sabem o mal que causaram ao país. Aqui é assim, num minuto você é brasileiro, no outro deixa de ser. Acho que somos assim pelo fato de o futebol, e até o esporte de uma maneira geral, ser uma das poucas esferas que o Brasil domina. Não admitimos perder no futebol, porque ele é basicamente uma das poucas coisas que nos resta. Algo que inevitavelmenete nos fornece alegria. A nossa religião.

Sim, sim, todos vão dizer que a derrota era prevista, que mais cedo ou mais tarde iam faltar as opções de substituição e que a expulsão do Felipe Melo era iminente. Mas cá entre nós, agora é muito fácil apontar um culpado.

Cada brasileiro é um técnico de futebol. Por isso, todos se sentem à vontade para escalar a seleção ideal. Uns dizem: "faltou o Neymar e o Ganso". Na minha opinião faltou otimismo de todos nós.

E o pessimismo já começou à quatro anos atrás, quando Dunga assumiu a seleção. Todos diziam que ele era incapaz de assumir a responsabilidade. Depois, apesar da vitória na Copa das Confederações, a escalação escolhida por ele dividiu opiniões. Pra piorar o Dunga caiu na besteira de xingar os jornalistas e fechar alguns os treinos para a imprensa. Claro, mexeu com a imprensa, pediu pra ser morto. Confesso que foi por esse motivo que ele conquistou minha simpatia. Não é qualquer um que tem peito para enfrentar a toda-poderosa-rede-globo-de-televisão.

A campanha anti-Dunga chega agora ao seu auge, com a eliminação. Sinceramente não sei do que estamos reclamando, ninguém acreditava mesmo. Todo mundo estava torcendo contra. Não acho justo agora criticar quem já está destruído. É o mesmo que chutar cachorro morto.

Quando o Brasil foi eliminado na Copa de 2006, com o gol de Henrry, vimos jogadores apáticos, pouco preocupados se tinham ganhado ou perdido. Dava pra contar nos dedos os que choraram. Apesar da sensação de dèjá vu, o Dunga foi muito feliz na medida em que resgatou o verdadeiro espírito da seleção brasileira. Aquele sentimento genuíno, de jogar futebol pelo futebol, pelo país, pelos brasileiros. Alguns jogaram mesmo sentindo dor. E dessa vez foi nítida a tristeza deles. Mas na Copa da África, como tantas outras grandes seleções, justa ou injustamente, o Brasil vai pra casa. Era "nação contra nação, e reino contra reino", e, no confronto, perdemos.

Existe vida após derrota? Só o tempo dirá. Agora nos resta recolher os cacos, levantar a cabeça e preparar a nossa Copa. Em 2014 será o Brasil na vitrine do mundo. Dez entre dez brasileiros acreditam que ganharemos a próxima. Quem pode saber? Futebol é loteria, como diz meu pai.

Fala sério pai, futebol tá mais pra jogo do bicho: só deu zebra!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Bola cultural


Mais famosa do que qualquer outra bola de qualquer outra Copa, jabulani vem sendo alvo de centenas de críticas (inclusive de jogadores) a medida em que a competição avança e todos observam o que ela é capaz de fazer. "Sobrenatural", "patricinha" e até "bola de mercado" são só alguns dos inúmeros apelidos que ela já recebeu.

Jabulani, que em zulu quer dizer celebração, já se tornou uma entidade. A imprensa fala dela como se fosse um objeto com vida e vontade própria. Até chamaram o Cid Moreira pra dizer "Jabulaaaani", quando ela faz uma daquelas curvas inacreditáveis; realmente humilhantes para qualquer goleiro.

Era nesse ponto que eu queria chegar. As curvas que a jabulani faz. Os jogadores reclamam que a bola muda de trajetória muito facilmente. Tem gente que diz que é pura ciência, outros dizem que é macumba africana da braba. Tudo frescura. Ora, a bola da Copa deve necessariamente refletir algum aspecto da cultura do país sede. Francamente, quem já teve a oportunidade de ver um sul-africano fugindo de um leopardo vai entender porque a bola é tão ligeira. É óbvio! Quando se vive na selva africana ou você muda de trajetória bem rápido, ou você morre.

Isso me faz pensar como será a bola da Copa de 2014. Se ela incorporar algumas características brasileiras vai ser caso de polícia. Já imaginou se a bola antes de entrar no gol resolver dar uma sambadinha? Ou se ela resolver pedir propina ao goleiro pra bater na trave e não entrar? Não ia dar certo.

O fato é que, num país onde o Dunga possui mais poder que o próprio presidente da República tudo pode acontecer. A bola brasileira poderia simplesmente entrar em greve e ir à praia pegar um bronze e tomar uma cervejinha.

Fazer o que, cada um com sua cultura.

sábado, 19 de junho de 2010

A savana universitária

Antes de passar no vestibular eu nutria em minha cabeça uma concepção de universidade totalmente utópica. Pensava que naquele sagrado ambiente de estudos todos seriam inteligentes, legais e amigos que viveriam em plena harmonia. Pensava que me livraria de vez dos idiotas do ensino médio e que daí pra frente teria amigos nerds. Doce engano. A universidade pública é um ambiente hostil e selvagem, e, como não poderia deixar de ser, repleto de gente idiota. E quando se faz faculdade de história, é pior ainda.

Bombardeados por todos os lados por todos os tipos possíveis de ideologias, os inocentes calouros vêm-se no meio de um fogo cruzado, sem saber de que lado ficar. Os que se decidem logo de cara, na maioria das vezes tornam-se comunistas. Isso mesmo, aqueles seres mitológicos comedores de criancinhas. Aí, o próximo passo é deixar a barba e o cabelo crescer, adotar "O capital" como livro sagrado e Marx como deus.

Já que ser de esquerda está na moda, criticar a religião, seu pai empresário, o preço do pãozinho da padaria e até a vovozinha doente virou atividade corriqueira. E não é difícil ver alguém subir no palanque para criticar o capitalismo com um Nike no pé, camisa da Adidas e boné Von Dutch na cabeça. E esses pseudo-marxistas são a maioria. Atribuo isso ao fato de a direita estar atravessando uma crise. Por isso, os alunos que decidem debandar para o lado burguês são muito mal vistos, assim como os que decidem não debandar para lado nenhum. Essa polarização radical(ou você é comunista ou você é seguidor de Eike, ou você é a favor das cotas ou é racista, e tantos outros ous) às vezes constrange. Um meio termo não é aceito e pessoas moderadas são vistas como "cordeirinhos covardes". Legal seria se todo mundo preferisse estudar. Se fosse assim, não haveriam alunos com matrícula de 1998 e o dinheiro do contribuinte não estaria sendo desperdiçado com a formação eterna dos estudantes profissionais.

Hoje, quando lembro como eu imaginava a universidade antes de conhecê-la de fato, tenho vontade de rir. Pobre criança inocente eu fui. No primeiro período, curiosa como sou, cheguei a entrar numa sala de reuniões de um grupo de negros, uma espécie de panteras negras universitários. Claro, loirinha, olho azul, branquela, fui expulsa imediatamente. Acho que devem ter pensado que eu era espiã da SS. Quem sabe eu poderia ter sido uma ótima militante contra o racismo, se tivessem me dado esta oportunidade. Agora imagina se eu resolvesse criar meu próprio grupo militante, somente com pessoas loirinhas, de olho azul e branquelas, vai por mim, ia dar merda.

E assim vou sobrevivendo em meio à selva universitária, este maravilhoso lugar onde todos desejam literalmente ou se lamber nas festinhas ou @#$%&*! o outro, no bom e no mal sentido.

Só espero estar viva depois deste post para um escrever um próximo.

sábado, 12 de junho de 2010

Kant , os castelos de areia e o teatro



Kant já dizia que o nosso entendimento é incompleto e por isso somos incapazes de compreender certas coisas. E eu já desisti de tentar entender essas certas coisas há muito tempo.

Por exemplo, eu nunca vou entender porque as pessoas morrem e nós temos que continuar vivos como se nada tivesse acontecido. Nunca vou entender Porque as pessoas têm que morrer. Nem porque elas têm que nascer. Ou porque nada dura pra sempre.

Sobre este último ponto, nós sempre tendemos a achar que nossos amores serão eternos, quando, de repente, eles se esvaem como se fossem castelos de areia. Não tão de repente assim, afinal, os castelos de areia vão se esvaindo aos poucos. A cada onda lançada na praia e a cada rajada de vento uma parte deles desmorona e seu tamanho e beleza gradativamente diminui. E eu não entendo porque tem que ser assim. Se temos a sensação de que vai ser pra sempre e se queremos que seja para sempre, então, porque na prática não é?

Não me venha com esse papo furado de que o destino nos separa. Não acredito no destino da maneira que a maioria das pessoas crê. Ele não está sentado no alto do teatro, por detrás das cortinas, regendo e puxando as cordas, como se fôssemos meras marionetes. Ele não é senhor de tudo. As coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e a necessidade é incoercível, o acaso instável, enquanto nossa vontade é livre.

Portanto, nossa história somos nós que escrevemos, e cabe a nós decidir quem serão os personagens que farão parte do roteiro. Mesmo que esse roteiro seja um drama e não um romance com um lindo final feliz, como gostaríamos que fosse.

O melhor disso, é que, como diretores da peça da vida, temos o poder de decidir as próximas cenas. E que a peça só termina quando morremos.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Definição aos 18

Escrevi este texto há dois anos atrás. Agora que reli, posso ver que algumas coisas mudaram, mas a maioria, geralmente as mais bizarras, permanecem as mesmas.

Alery Carneiro Correa. Não gosta do "Carneiro". É conhecida como a filha do Adelson. Às vezes roe unha e chupa o dedo. É completamente desastrada. Vive tropeçando, caindo, derrubando coisas, pagando mico. Sempre chega atrasada na escola, e fica conversando com a Hellô. Ela sofre de amnésia,e frequentemente faz perguntas do tipo:"Amanhã tem prova!?"ou"Era pra hoje?!". Tem uma mania bizarra de chamar os outros de "nem". É boa em história, mas odeia química. Adora ler, na verdade já leu tantos livros que já perdeu a conta, e não se cansa de falar sobre eles como se fizessem parte da sua própria história. Aliás, se a vida dela fosse um livro, seria de crônicas, e suas páginas estariam recheadas com capítulos de comédia e ironia. É flamenguista doente e não liga para o q os botafoguenses digam do seu time, ela sempre vai adorá-lo! Ela ama animais, e às vzs, conversa com a mula. Adora comer, come o dia todo e sempre se acha gorda depois. Vive rindo; de tudo ela ri, até quando não pode. Ama seus amigos de paixão e não abre mão da companhia deles. Tem um All Star azul que nunca é lavado, não importa que digam o quanto está encardido, ela gosta dele assim nesse tom azul petróleo. Adora poesia. Tem medo de escuro e de palhaços . Ela admite q é um pouco complicada e que tem um ou outro comportamento estranho; e se a questionarem sobre o seu jeito de ser, ela vai rir, vc vai acabar rindo também, e em seguida, enigmática, lhe dirá: "Decifra-me ou devoro-te".

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O porre da nação



Há muito tempo venho procurando resposta para a questão do nacionalismo brasileiro. Isto é, se é que ele existe. Na verdade, acho que sim. Mas, ele só se manifesta de quatro em quatro anos.

Sim, queridos compatriotas, precisamos admitir que o Brasil só se lembra do Brasil em época de Copa do Mundo.

A verdade é dura, mas o país precisa esperar quatro anos para ser amado, defendido, discutido, comentado. Somente de quatro em quatro anos as pessoas perdem o sono por causa dele. As pessoas reunem-se e debatem sobre que jogadores serão convocados e sobre quais deixaram de ser, mas nunca ou quase nunca discutem qual será a "escalação política". Quando perdemos um jogo, mais uma vez nos reunimos para discutir as causas da derrota, na intenção de não repetir os erros. Porém, o clímax fica por conta de uma eventual eliminação. Se o Brasil é eliminado, tem início um debate impetuoso, a famosa "caça às bruxas", e todos procuram furiosamente um culpado.

Futebol é um esporte lindo. Aliás todo esporte é lindo. Só não vejo porque nós não podemos trasferir todo esse amor e atenção dedicados ao futebol para o Brasil. Afinal, em caso de perda da seleção, apenas alguns contratos esportivos milionários seriam prejudicados. Mas se fosse ao contrário, seria uma grande merda para o país inteiro.

Quero acreditar que essa falta de interesse é um momento passageiro, ou como prefirir chamar, um porre político. Já dizia Bertold Brecht: "O pior analfabeto é o analfabeto político". Mas como já disse que estamos de porre político, seria muita desgraça ser bêbado e analfabeto ao mesmo tempo. Então porque será que não nos interessamos pelo assunto? Porque às vezes desejamos ter nascido em outro lugar? Porque temos vergonha de colocar o mão no peito quando cantamos o Hino Nacional? E porque nem sabemos cantar o Hino? São perguntas que merecem resposta. Porém, essa tarefa não cabe somente a mim, mas à um time de mais de 190 milhões de jogadores, que há cerca de 500 anos vem sofrendo fragorosas derrotas, apesar de jogar em casa.

O problema é que muitas vezes nem sabemos quem é o adversário.