segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A ilha

A maioria das pessoas que convivem comigo percebem bem rápido que o meu lado emocional é totalmente instável, muito semelhante a uma montanha russa. Às vezes estou no alto. Às vezes embaixo. Muitas vezes fazendo loopings, outras nos espirais. Bem, passada a rápida crise existencial, ontem eu estava pensando na minha sorte. Eu realmente não tenho do que me queixar. Alguns acreditam que a felicidade é resultado do agir da poderosa mão de Deus, outros do braço do destino, outros ainda, do espírito do mundo. O fato é que a vida me presenteou com a vida. Uma vida que eu não diria perfeita, mas quase.

Estava dando uma olhada no meu blog e percebi que aqui tem muito pouca coisa sobre mim. Falo dos outros, de histórias inventadas, de política, de futebol e coisas atuais e esqueço de falar do que é fundamental: eu mesma. Para começar, um pouco da minha história. Sou nascida e criada numa família de classe média, com pais amorosos e presentes. Desde pequena sempre me deram tudo que eu precisava, mas tiveram o cuidado de não me dar todas as coisas que eu queria. Hoje agradeço a eles por isso.

Meu pai é uma pessoa de espírito prático e com isso me ensinou muita coisa. Tanta coisa que se eu for tentar me lembrar de qualquer uma agora não conseguiria. Na verdade, eu só me lembro das suas palavras quando eu já estou vivendo a situação. Considero meu pai um filósofo funcional. Sempre que pode, ele solta um de seus ensinamentos, seja qual for o momento. Ele é engraçado. Adoro discutir política com ele, porque divergimos muito. Mas nem sempre. Às vezes eu acabo concordando com as opiniões dele. Meu companheiro de pesca, sempre acreditou em mim. Quando eu decidi jogar volei ele acreditou que eu podia. Quando eu decidi cursar história, ele acreditou de novo, mesmo achando que eu era inteligente o suficiente para ter uma profissão "melhor". Investiu o quanto pôde na minha educação e pagou todos os cursos loucos que eu já quis fazer. Me criou como um menino, sem frescuras e futilidades desnecessárias. Me levava ao Maracanã pra ver o mengão jogar. Quando vamos acampar, ele sempre esquece o travesseiro e acaba puxando o meu para si. Ele rouba as batatas-fritas do meu prato quando almoçamos juntos. Ele troca de canal quando eu estou assistindo a novela. E muitas vezes ele deixou de comprar coisas para si próprio, só para me beneficiar. No passado tivemos problemas, hoje estamos muito melhores.

Minha mãe é uma pessoa complicada de se conviver. Eu sei bem porque. Somos muito parecidas e quando duas personalidades fortes se encontram a briga muitas vezes é inevitável. Mas eu me lembro bem de como ela sempre se preocupou comigo. Foi por causa dela que eu aprendi a ler tão cedo. Debaixo de pancada, mas pelo menos aprendi. Nós sempre passeávamos juntas e eu adorava sair com a mamãe, me arrumava que nem uma mocinha. Às vezes ela é um pouco egoísta e nós trocamos acusações. Mas quando tenho pesadelos a noite é pra cama dela que eu vou. Ela já sabe que sou eu entrando no quarto, após mais um sonho ruim. E sempre compreende que só desse jeito eu consigo dormir. Perto dela me sinto protegida. Ela sempre foi a mais preocupada em me dar o melhor. A melhor roupa, o melhor sapato, o melhor material escolar, a melhor comida, o melhor quarto, enfim. Eu sempre tive tudo e foi graças a minha mãe. Ela me deu a vida e me arrependo de muitas coisas que aconteceram entre nós.

Minha irmã é muito diferente de mim. Ela está atravessando a adolescência e eu me preocupo com quem ela vai ser. Lembro de como eu pedi aos meus pais que ela existisse. Eu queria uma amiga para brincar, pois me sentia só. Eu odiava ser filha única. Lembro muito bem da primeira vez que a vi. Minha vó me levou na maternidade e lá me proibiram de entrar, porque eu era muito pequena. Então eu me soltei da minha vó e fui correndo para a frente do prédio. Gritei e gritei, fiz um escândalo até que a minha mãe ouvisse e trouxesse aquela coisinha branca e loira pra janela. Era minha irmã, que eu via pela primeira vez. Lembro também de como a gente brincava de "A lista de Schindler". A gente se enrolava no lençol, pegava as bonecas e fingia que estava fugindo dos nazistas - eu nunca disse que éramos crianças convencionais - a gente brincava também de guerra de trincheira, fazendo os ursinhos de refém com a faca de pão. Sempre brigamos por brinquedos e hoje em dia brigamos por coisas fúteis, as mais fúteis possíveis. Eu a defendia na escola, mesmo que isso me custasse ser saco de pancadas dos grandalhões. Quando a minha cama quebrou nós dormimos juntas até que comprassem outra. Hoje em dia isso seria inviável, pois somos enormes. Vivemos criticando uma a outra. Mas, de minha parte, não faço por mal, pois quero que ela se torne uma pessoa incomum e não apenas mais uma na multidão. Um dia ela fará a diferença.

Agora estamos todos separados. Meu pai de um lado, a gente de outro. Mesmo assim estamos bem. A gente sempre acaba se acostumando à certas situações que a vida nos impõe. A vida é uma ditadora impiedosa. Ela estabelece regras e situações, cobra altos tributos. E mesmo assim sai impune. Nada podemos fazer. Ou nos adaptamos, ou somos tragados. Um certo alguém me disse que não existe felicidade completa, apenas momentos. A vida se resumiria a pequenas ilhas dessa felicidade perdidas num grande oceano. Eu, no entanto, preferia que nunca tivesse precisado nadar nesse mar. Preferia nem ter colocado meus pés na água. Antes, escolho ser náufraga. Porque a maior e mais segura ilha de felicidade sempre foi e sempre será minha família. Dela não quero me ausentar jamais.

OBS: E não me preocupo em ser piegas. Com medo de ser piegas já deixei de dizer muitas coisas a muita gente querida.

4 comentários:

  1. É isso aí, menina. Somos todos piegas, a diferença está em que fazemos tipos. Não demora e verá que há um bom modo de levar a vida; no mínimo, menos desgastante: o senso de humor combinado à disponibilidade pra medir a própria ignorância. E o que é pior: quanto mais velho, parece que essa medida fica maior.

    SRN

    ResponderExcluir
  2. Outra coisa: quando é que você vai escrever alguma coisa lá pro blog Rubro-Negro: Nação Maior Carioca?
    O que acha dessas incursões pela torcida do Mais Querido ao lado de seu pai?

    SRN

    ResponderExcluir
  3. oi ale
    poxa e muito legal essa auto crítica
    eu tbm tenho problemas com meus pais
    e concordo com eles em algumas coisas
    e demostra isso de uma maneira muito
    sincera
    muito gostoso de ler

    contunue assim miga
    bjos

    ResponderExcluir
  4. A felicidade sempre foi filha do instante. Frued no Mal-estar da Civilização dá provas disso. Fomos apresentados ontem e hoje já estou aqui a conhecer-te a vida. Viva a internet. Quantos nos são "íntimos" sem o nosso conhecimento ( santa invasão). Enfim, foi agradável te ler e sempre que no orkut me sorrir seu perfil, venho dá uma olhadela. E gostei da união "Vida e Ditadura", apesar que esta é a única "ditadura" que não precisa justificar-se. Pois, a vida é o que é, é o Devir na qual tudo se submete. É o lugar de existência aonde todas as coisas sub-existem. É bonita, é Bonita e é Bonita como diria o poeta.
    Beijos e parabéns!

    ResponderExcluir