Me lembro de quando eu tinha só 6 anos e pensava em fugir de casa. Pegava a lancheira do colégio, meus brinquedos preferidos e colocava tudo dentro da mochila. Ameaçava sair pelo portão, mas nunca saí. Eu sempre parava antes e pensava em como poderia sobreviver só com os meus brinquedos. O meu lanche logo acabaria e só me restariam os brinquedos. Nessa época eu já era extremamente racional... Eu também tinha medo do que havia lá fora. Tinha medo do desconhecido. Então eu sempre desistia do plano. Voltava para meu quarto e guardava tudo dentro do baú, sem que ninguém ao menos desconfiasse de minhas reais intenções. E durante muito tempo eu vivi assim, só conhecia o quintal da minha casa.
Olhando agora acho que talvez isso não tenha mudado. Continuo conhecendo apenas o quintal. Jamais ultrapassei o portão. Continuo postada diante dele, com o rosto espremido entre as grades, vendo a vida acontecer lá fora. Com a mochila nas costas, está tudo pronto pra partir. Só falta a coragem.
Eu sempre sonhava com o que eu seria quando crescesse. Eu queria ser importante, alguém grande, que realmente valesse a pena ser lembrada. Mas reavaliando agora, essas espectativas de alguma forma se desprenderam e eu nem sei dizer em que momento isso aconteceu. Só sei explicar quem eu já fui. Mas não tenho idéia de quem sou ou de quem eu quero ser agora. Que conclusões tiro disso? Tudo, absolutamente tudo esvaece. Foi assim com os meus sonhos.
Algumas das minhas frustrações provém do fato de eu não saber meu lugar. Sempre me senti deslocada no mundo, como se não precisasse estar aqui. Como se não fizesse questão nenhuma disso. Não tenho nenhum dom especial. Nenhuma habilidade extraordinária que possa ser útil a humanidade. Só sei ler. Sou uma grande leitora que devora livro após livro na esperança de absorver algum traço interessante de suas histórias para minha própria vida. Desesperadamente desejosa de encarnar esses personagens, sejam eles quais forem. Aceitaria ser o mais miserável deles, desde que sua história produzisse reviravoltas na minha. E quando termino de ler um livro, ao invés de me sentir satisfeita pela distração, sinto-me engolida por um vazio sem igual. Transformei os livros em escudos e continuo me escondendo atrás deles como se a minha existência realmente dependesse disso.
Sempre que penso nisso percebo que talvez essa não seja eu. Talvez eu não queira me basear somente nas histórias alheias. Eu preciso de ferramentas para escrever minha própria história. Preciso de um espelho mágico para saber quem eu realmente sou. Sem essa informação eu jamais avançarei o portão. Jamais encontrarei o caminho para minha própria vida.
Não posso mais viver assim. As vezes sinto-me sufocada sem conseguir respirar. Não posso mais sorrir sem sentir vontade ou só por estar acostumada à isso. Não posso me prender à antigas tradições que me consomem lentamente. Talvez ninguém esteja interessado nisso, mas vivi presa muito tempo e agora desejo sair. Agora estou aqui, mais uma vez em frente ao portão, mas dessa vez vou embora. Estou gritando e chutando para que me deixem ir. Se ninguém abrir eu pularei o muro. E se este for alto demais, cavarei por baixo. Não me importa se lá fora há coisas ruins. Eu quero mesmo cair. Mas também quero me levantar. Afinal, são nossas quedas que produzem as alavancas.
E espero sinceramente que antes de encontrar o caminho certo eu possa vaguear um pouco por aqueles mais duvidosos. Porque muito pior do que viver confinada em um espaço restrito é perder a aventura das incertezas diárias.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Os dementes

Vivo em uma sociedade pobre. E não estou me referindo a pobreza de dinheiro, que impede que um menino coma um pedaço de pão. Mas sim à pobreza que permeia a música , a literatura, o teatro, o cinema... enfim, a arte e a cultura. A cruel e genuína pobreza, ou melhor, a mais completa e asfixiante miséria de espírito.
Fico seriamente preocupada com os jovens dessa sociedade, apesar de ser tão jovem quanto eles. Me espanta o fato de ninguém mais falar ou escrever o que pensa. Esses indivíduos têm preguiça de pensar e de agir por conta própria e por isso, preferem as fórmulas prontas. Eu me assusto de ver como a sociedade tem sido palco de um verdadeiro teatro de dementes e de como a arte perdeu seu espaço na vida das pessoas.
Um belo dia acordei e o mundo estava assim. Olhei pela janela e lá estavam eles. Liguei a televisão e, surpresa, lá estavam eles de novo. Mas foi somente quando sintonizei o rádio que percebi o tamanho do problema: eles, os medíocres, resolveram formar bandas. É doloroso assistir toda uma geração seguir ladeira abaixo, culturalmente falando. Pra quem cresceu ouvindo Capital Inicial, Legião Urbana e Cazuza, o cenário musical jovem atual é vergonhoso. Pseudo-bandas como Cine, Restart e Nxzero fazem a cabeça da juventude de hoje.
Se antigamente as multidões se reuniam para mudar o mundo, hoje em dia elas se arrastam para assistir aos shows de grupos de rap e funk extremamente machistas, como por exemplo o “Bonde do Stronda”. Enquanto isso, toda uma parte da música brasileira de qualidade é deixada de lado. É lamentável que um dos movimentos musicais mais fortes dentro de um país seja aquele que reduz mulheres a bonecas infláveis e objetos descartáveis.
Confesso, a primeira vez que assisti esses caras na tv achei que eles estavam de brincadeira. Que era uma pegadinha, sei lá, algo do tipo. Não podia ser sério. Infelizmente, pra meu desespero, era sério. E não se trata só de música ruim. Há todo um estilo de vida por trás. Acho que eles estão tentando se diferenciar. Mas é engraçado que quando querem "ser diferentes" os adolescentes acabam se comportando todos iguais. Coisa esquisita.
A música é só o ponto de partida. O caráter blasé está presente na juventude atual como nunca esteve antes. Alguns deles até tentam parecer cult fingindo que gostam de coisas antigas e bizarras quando na verdade são vazios. Aliás, até isso está na moda agora. Ser nerd tornou-se algo sexy e desejável. Eles não pensam sozinhos e só falam o que os outros querem ouvir. Não tem nada na cabeça a não ser escova definitiva e boné Von dutch. Só leram Crepúsculo, Harry Potter e O código da Vinci. De poesia só conhecem uma frase ou outra do Fernando Pessoa pra colocar no orkut. Não conhecem os clássicos e nem sentem vergonha por isso. Não assistiram Casa Blanca e muito menos E o vento levou. Seu lugar preferido é sempre o shopping ou a praia. Fúteis, levianos, arrogantes, mornos e semi-analfabetos, só assistem MTV e Malhação, como se a vida se resumisse aos dramas idiotas e repetitivos vividos pelos personagens. Como se isso fosse o axioma universal.
Hoje mesmo, bem do meu lado, enquanto eu lia Dostoiévski reparei que a minha irmã caçula estava lendo revista Caras. E as comparações são inevitáveis: enquanto eu escuto Edith Piaf e Ray Charles ela prefere Justin Bieber. Enquanto eu frequento a Biblioteca Nacional ela vai ao cinema com as amigas assistir Shrek. Enquanto eu acompanho os documentários do Natgeo ela vê Disney Channel pra saber o que a Hannah Montana está fazendo de bom. Enquanto eu estudo francês ela finge que fala inglês. Sem personalidade. Sem verdade. Sem paixão. Sem arte.
Não consigo entender porque as pessoas querem ser assim. Porque todos querem ser iguais, ou querem ser diferentes sendo iguais. Emos, coloridos, nerds, patricinhas, não importa. Eles são assim por convicção ou só querem chamar atenção numa sociedade onde impera o medo do anonimato? Essa despersonalização, essa massificação poderia ser só modismo, uma fase como dizem alguns. O fato é que estamos assistindo ao sepultamento das identidades pessoais dos jovens. Eles não sabem quem são, não sabem seu lugar no mundo e não questionam o status quo. Seguem assim, imitando uns aos outros, reproduzindo discursos prontos e atitudes previamente estabelecidas, como se essa fosse a única maneira de existir. Preferem os chavões, os paradigmas e os lugares comuns, simplesmente por esse ser o caminho mais fácil.
E num mundo onde absolutamente todos os buracos são redondos, ninguém mais quer ser o pino quadrado desafiador. Ninguém tem coragem de ser ousado. Ninguém mais é autêntico. Ninguém se atreve a perseguir a originalidade.
Definitivamente, ninguém mais deseja ser o estranho no ninho. Mesmo que isso custe NÃO SER VOCÊ MESMO.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
O maroto
Ele não podia evitar, era completamente louco por ela. Tinha um desejo mais forte que a própria razão. Não podia resistir ao seu corpo delgado, nem à sua pele cálida e macia. Ela, por sua vez, não passava bem. Estava arrependida por ter destruído um casamento. Mas agora era tarde, não havia como consertar os erros do passado.
Ela queria conversar seriamente, tinha algo importante a dizer e tentava escolher as palavras certas enquanto o libertino tinha os pensamentos voltados para um motel a duas quadras dali. Mas ela não iria, não faria de novo. Nunca mais se entregaria a ele, não podia, pois bastou vê-lo para que a lembrança daquele fatídico dia retornasse à sua memória, como num filme em câmera lenta. Ela se lembrava de como se opôs àquela idéia insana, achara muito arriscado apesar de haver retribuído às investidas do cunhado algumas vezes. Ele argumentou que seria emocionante e lhe assegurou que sua esposa só chegaria em casa às seis, e, durante a tarde inteira, o apartamento em Botafogo estaria vazio. Um perfeito ninho de amor secreto.
A esposa enganada caminhava na calçada a passos largos quando se sucedeu a desventura. Um tropeção, um salto quebrado, um gritinho agudo, um tombo. Estava atrasada, mas agora precisava voltar em casa para trocar de sapatos. Entrou descalça no elevador do prédio. Sentia uma dor terrível no tornozelo, mas uma dor ainda mais aguda estava por vir.
A amante entrou em choque quando viu sua irmã parada na soleira da porta do quarto. Nenhuma das duas pareciam acreditar no que via. A mulher traída permaneceu inerte, ainda trazia na mão esquerda o par da sandália com o salto arrancado. Os olhos marejados indicavam tristeza e decepção, porém a boca estava crispada em espasmo e os dentes fortemente cerrados contrastavam com sua postura apática. Fora um golpe muito duro para ela.
Depois deste episódio, decidiu passar sozinha algum tempo na Califórnia. Quando retornasse, pensava em conversar com o marido para que pudessem decidir de vez o futuro da relação. Para a irmã, ela reservou todo desprezo que havia dentro de si, pois acreditava que seu querido fora vítima de uma cunhada despudorada e marota.
Apesar disso, a pobre coitada já estava arrependida do mal que havia causado, e agora estava ali, novamente diante daquele homem. Não se viam desde o dia do incidente. Ele a olhava malicioso, mas ela apenas abria e fechava a boca, como se, na última hora, desistisse do que ia falar. Precisava contar que estava grávida, mas tinha medo da reação dele. Ela não queria ter a criança, não queria gerar um bastardo. Já tinha decidido fazer um aborto, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar a clínica e estava disposta a implorar que ele pagasse. Acabou contando tudo de uma vez. De início, ele ficou nervoso, mas logo se acalmou. Disse que a criança nasceria e que seria seu filho, pois era seu sonho. Ele lhe daria dinheiro para que sumisse de sua vida e nunca mais os procurasse.
Passados alguns meses, a criança nasceu e foi entregue ao pai, conforme o combinado. A mãe resolveu começar uma vida nova e mudar-se para a Colômbia , onde conheceu um poderoso traficante de armas. Ela vive bem e o visita na penitenciária aos domingos. A esposa voltou do seu exílio e retomou o casamento assim que o marido lhe contou que havia adotado um bebê. Ela não podia ter filhos e por isso ficou profundamente comovida com o gesto tão puro e nobre do marido.
Passaram-se alguns anos e hoje ela ama o Bruninho como se fosse seu filho. Mas sempre que o menino sorri, ou até mesmo quando faz pirraça, alguns traços familiares ficam evidentes, e ela, no canto mais profundo de sua mente, pensa consigo mesma:
- "Como se parece com a danada da tia!"
Ela queria conversar seriamente, tinha algo importante a dizer e tentava escolher as palavras certas enquanto o libertino tinha os pensamentos voltados para um motel a duas quadras dali. Mas ela não iria, não faria de novo. Nunca mais se entregaria a ele, não podia, pois bastou vê-lo para que a lembrança daquele fatídico dia retornasse à sua memória, como num filme em câmera lenta. Ela se lembrava de como se opôs àquela idéia insana, achara muito arriscado apesar de haver retribuído às investidas do cunhado algumas vezes. Ele argumentou que seria emocionante e lhe assegurou que sua esposa só chegaria em casa às seis, e, durante a tarde inteira, o apartamento em Botafogo estaria vazio. Um perfeito ninho de amor secreto.
A esposa enganada caminhava na calçada a passos largos quando se sucedeu a desventura. Um tropeção, um salto quebrado, um gritinho agudo, um tombo. Estava atrasada, mas agora precisava voltar em casa para trocar de sapatos. Entrou descalça no elevador do prédio. Sentia uma dor terrível no tornozelo, mas uma dor ainda mais aguda estava por vir.
A amante entrou em choque quando viu sua irmã parada na soleira da porta do quarto. Nenhuma das duas pareciam acreditar no que via. A mulher traída permaneceu inerte, ainda trazia na mão esquerda o par da sandália com o salto arrancado. Os olhos marejados indicavam tristeza e decepção, porém a boca estava crispada em espasmo e os dentes fortemente cerrados contrastavam com sua postura apática. Fora um golpe muito duro para ela.
Depois deste episódio, decidiu passar sozinha algum tempo na Califórnia. Quando retornasse, pensava em conversar com o marido para que pudessem decidir de vez o futuro da relação. Para a irmã, ela reservou todo desprezo que havia dentro de si, pois acreditava que seu querido fora vítima de uma cunhada despudorada e marota.
Apesar disso, a pobre coitada já estava arrependida do mal que havia causado, e agora estava ali, novamente diante daquele homem. Não se viam desde o dia do incidente. Ele a olhava malicioso, mas ela apenas abria e fechava a boca, como se, na última hora, desistisse do que ia falar. Precisava contar que estava grávida, mas tinha medo da reação dele. Ela não queria ter a criança, não queria gerar um bastardo. Já tinha decidido fazer um aborto, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar a clínica e estava disposta a implorar que ele pagasse. Acabou contando tudo de uma vez. De início, ele ficou nervoso, mas logo se acalmou. Disse que a criança nasceria e que seria seu filho, pois era seu sonho. Ele lhe daria dinheiro para que sumisse de sua vida e nunca mais os procurasse.
Passados alguns meses, a criança nasceu e foi entregue ao pai, conforme o combinado. A mãe resolveu começar uma vida nova e mudar-se para a Colômbia , onde conheceu um poderoso traficante de armas. Ela vive bem e o visita na penitenciária aos domingos. A esposa voltou do seu exílio e retomou o casamento assim que o marido lhe contou que havia adotado um bebê. Ela não podia ter filhos e por isso ficou profundamente comovida com o gesto tão puro e nobre do marido.
Passaram-se alguns anos e hoje ela ama o Bruninho como se fosse seu filho. Mas sempre que o menino sorri, ou até mesmo quando faz pirraça, alguns traços familiares ficam evidentes, e ela, no canto mais profundo de sua mente, pensa consigo mesma:
- "Como se parece com a danada da tia!"
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Um cão apenas
Doente, cansado e abatido, o cão ia vagando pela calçada, meio cambaleante. Movia-se dotado e consciente de todos os seus sentidos, porém, sem poder enxergar as cores. Andava, somente por andar, sem saber para onde iria. As patas ossudas não tinham seu compasso natural; revezavam-se, e uma de cada vez, levavam o cão em frente, entre trêmulas pausas. Ninguém olhava. Ninguém podia ouvir que ele grunhia baixinho.
Enfim, já sem forças para caminhar, ele parou. Olhava para o alto com as pupilas dilatadas e o focinho úmido; incapaz de recompor-se ao que já fora um dia. Encostou-se no muro e deitou-se no chão sujo. Uma última olhada em volta e uma névoa sobreveio sobre ele, envolvendo-o e aliviando toda a dor. Depois disso expirou, levando consigo todas as suas lembranças de cachorro.
O corpo esfriou. Um mendigo aproximou-se e o cobriu com um pedaço de trapo que trazia envolto em si. O homem ia seguir, mas parou, pensando. Resolveu descobrir o cão, retomando o pano e tornando a se enrolar nele. E disse:
- Era um cão apenas.
E foi embora.
Enfim, já sem forças para caminhar, ele parou. Olhava para o alto com as pupilas dilatadas e o focinho úmido; incapaz de recompor-se ao que já fora um dia. Encostou-se no muro e deitou-se no chão sujo. Uma última olhada em volta e uma névoa sobreveio sobre ele, envolvendo-o e aliviando toda a dor. Depois disso expirou, levando consigo todas as suas lembranças de cachorro.
O corpo esfriou. Um mendigo aproximou-se e o cobriu com um pedaço de trapo que trazia envolto em si. O homem ia seguir, mas parou, pensando. Resolveu descobrir o cão, retomando o pano e tornando a se enrolar nele. E disse:
- Era um cão apenas.
E foi embora.
domingo, 11 de julho de 2010
Poetamento
Momento poético. Resolvi publicar algumas poesias minhas apesar de não gostar muito de escrever nesse gênero. Submeto a vocês a vergonha dos meu sentimentos. Voilá!
Portão aberto
Dia triste infeliz
levei um tempo pra recuperar
a casa que eu tanto gostava
de repente era maldita
porém seu portão sempre esteve aberto
bastava empurrar,
bastava subir os degraus da escada
atravessar sua porta
seria como deixar tudo pra trás
esquecer as mágoas
como abrir as janelas e deixar a poeira sair
e a luz iluminar os cantos escuros
era só deixar a emoção fluir
tocar de novo aquelas mãos
ouvir de novo as histórias
me embalar no ritmo das canções de ninar
e nunca esquecer que o portão
sempre vai estar aberto
basta empurrar.
Soneto informativo
Só quero que saiba,
que acordei pensando em você
e que agora ainda
continuo pensando.
E que nunca na vida
tive um motivo tão forte
pra gostar de viver.
Se tive, quando?
Pois só você tem o poder
de me fazer sentir bem,
sem precisar sofrer
Mas sem você ao meu lado
algum problema tem,
e que graça pode haver?
Um só instante
Escuta minha lira singela
no enlevo de um soneto arrojado
muito me enerva ter contido
o beijo antes tão desejado
Ao ver passar esta vida ingrata
me comprazo e olho pra trás
pro devaneio de vidas fadadas
a encontrarem o amor jamais
E essa leve paixão delirante
levou embora minha alegria
e com ela também seu amante
Que não sabe amar, nem soube antes
quem me dera ele ter aprendido
apenas por um só instante.
Portão aberto
Dia triste infeliz
levei um tempo pra recuperar
a casa que eu tanto gostava
de repente era maldita
porém seu portão sempre esteve aberto
bastava empurrar,
bastava subir os degraus da escada
atravessar sua porta
seria como deixar tudo pra trás
esquecer as mágoas
como abrir as janelas e deixar a poeira sair
e a luz iluminar os cantos escuros
era só deixar a emoção fluir
tocar de novo aquelas mãos
ouvir de novo as histórias
me embalar no ritmo das canções de ninar
e nunca esquecer que o portão
sempre vai estar aberto
basta empurrar.
Soneto informativo
Só quero que saiba,
que acordei pensando em você
e que agora ainda
continuo pensando.
E que nunca na vida
tive um motivo tão forte
pra gostar de viver.
Se tive, quando?
Pois só você tem o poder
de me fazer sentir bem,
sem precisar sofrer
Mas sem você ao meu lado
algum problema tem,
e que graça pode haver?
Um só instante
Escuta minha lira singela
no enlevo de um soneto arrojado
muito me enerva ter contido
o beijo antes tão desejado
Ao ver passar esta vida ingrata
me comprazo e olho pra trás
pro devaneio de vidas fadadas
a encontrarem o amor jamais
E essa leve paixão delirante
levou embora minha alegria
e com ela também seu amante
Que não sabe amar, nem soube antes
quem me dera ele ter aprendido
apenas por um só instante.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
A raiva
Você já teve raiva? Muita, muita raiva? Raiva de verdade a ponto de querer, sei lá, dar um chute na cara de uma velhinha de 97 anos? Pois é, eu senti toda essa raiva. Culpa do banco Itaú. Quem já teve a oportunidade de se aborrecer com o atendimento desse banco sabe do que estou falando. O caso é o seguinte:
Abri minha conta há uns quatro meses atrás e solicitei um cartão de crédito. Até aí, tudo perfeitamente normal. Só que quando chegou o tal cartão veio no nome de "Alerj". Fiquei nervosa. Sabe, muita gente erra meu nome. Eu sempre tive pavor de primeiro dia de aula. Porque? O professor sempre chamava meu nome errado e as outras criancinhas riam de mim. Já me chamaram de "aléri", "alibi", "aliri" e até "alien". Tudo bem, "Alien" eu posso aguentar, mas "alerj", essa era nova. Respirei fundo e fui reclamar no banco. Eu disse à atendente que queria um cartão novo, e ela quis saber porque. Eu respondi calmamente que nunca tinha visto ninguém chamado Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. A mulher mexeu no computador e disse que um cartão novo chegaria na minha casa em no máximo 7 dias.
Os tais 7 dias viraram 3 meses e esta semana resolvi voltar ao banco para reclamar novamente. Entrei em uma fila quilométrica e quando consegui chegar ao guichê a mesma mulher de antes me atendeu. Eu perguntei se ela se lembrava de mim. Ela disse que não. Raiva. Tive que explicar o problema para a mesma pessoa mais uma vez. Ela pediu o número da minha conta, coisa que não sei e nem tenho anotado. Eu disse que não tinha a droga do número e ela insistiu que só poderia rastrear o cartão perdido com o tal número. Aí fiquei com muita, muita raiva. Aquele tipo de raiva que eu descrevi ali no começo do post. Contei até dez e falei: "Minha filha, o homem já foi à lua. Ele já clonou uma ovelha. Então não é possível que você não consiga apertar um simples botão pra resolver meu problema!" E ela disse que não era possível. Já muito nervosa, fui orientada a procurar um gerente para saber o bendito número.
Depois de esperar em outra fila, consegui falar com o gerente e tentei explicar à ele que de acordo com a lógica do capitalismo neo-liberal o banco estava perdendo dinheiro ao deixar de me concerder um simples cartão de crédito. Sem um cartão eu não poderia fazer compras e sem compras eles não poderiam me cobrar juros. E sem juros não haveria LUCRO. E, após pronunciar a palavra mágica, quase como um milagre, imediatamente, ele me informou o tal número. A linguagem do dinheiro é como o inglês: todo mundo têm que saber falar e quem não souber tá ferrado nessa vida.
Enfrentei a primeira fila mais uma vez para que, quando eu chegasse novamente no mesmo guichê, com a mesma atendente, ela me entregasse o cartão que já estava lá. Felicidade, contentamento. Mas por pouco tempo. Ao ler meu "nome" no cartão percebi que eles haviam trocado as sílabas e, ao invés de Alery, escreveram Arely.
Perdi minha aula e meu tempo a troco de nada.
Moral da história: Itaú, o banco feito para (foder) você.
Abri minha conta há uns quatro meses atrás e solicitei um cartão de crédito. Até aí, tudo perfeitamente normal. Só que quando chegou o tal cartão veio no nome de "Alerj". Fiquei nervosa. Sabe, muita gente erra meu nome. Eu sempre tive pavor de primeiro dia de aula. Porque? O professor sempre chamava meu nome errado e as outras criancinhas riam de mim. Já me chamaram de "aléri", "alibi", "aliri" e até "alien". Tudo bem, "Alien" eu posso aguentar, mas "alerj", essa era nova. Respirei fundo e fui reclamar no banco. Eu disse à atendente que queria um cartão novo, e ela quis saber porque. Eu respondi calmamente que nunca tinha visto ninguém chamado Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. A mulher mexeu no computador e disse que um cartão novo chegaria na minha casa em no máximo 7 dias.
Os tais 7 dias viraram 3 meses e esta semana resolvi voltar ao banco para reclamar novamente. Entrei em uma fila quilométrica e quando consegui chegar ao guichê a mesma mulher de antes me atendeu. Eu perguntei se ela se lembrava de mim. Ela disse que não. Raiva. Tive que explicar o problema para a mesma pessoa mais uma vez. Ela pediu o número da minha conta, coisa que não sei e nem tenho anotado. Eu disse que não tinha a droga do número e ela insistiu que só poderia rastrear o cartão perdido com o tal número. Aí fiquei com muita, muita raiva. Aquele tipo de raiva que eu descrevi ali no começo do post. Contei até dez e falei: "Minha filha, o homem já foi à lua. Ele já clonou uma ovelha. Então não é possível que você não consiga apertar um simples botão pra resolver meu problema!" E ela disse que não era possível. Já muito nervosa, fui orientada a procurar um gerente para saber o bendito número.
Depois de esperar em outra fila, consegui falar com o gerente e tentei explicar à ele que de acordo com a lógica do capitalismo neo-liberal o banco estava perdendo dinheiro ao deixar de me concerder um simples cartão de crédito. Sem um cartão eu não poderia fazer compras e sem compras eles não poderiam me cobrar juros. E sem juros não haveria LUCRO. E, após pronunciar a palavra mágica, quase como um milagre, imediatamente, ele me informou o tal número. A linguagem do dinheiro é como o inglês: todo mundo têm que saber falar e quem não souber tá ferrado nessa vida.
Enfrentei a primeira fila mais uma vez para que, quando eu chegasse novamente no mesmo guichê, com a mesma atendente, ela me entregasse o cartão que já estava lá. Felicidade, contentamento. Mas por pouco tempo. Ao ler meu "nome" no cartão percebi que eles haviam trocado as sílabas e, ao invés de Alery, escreveram Arely.
Perdi minha aula e meu tempo a troco de nada.
Moral da história: Itaú, o banco feito para (foder) você.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
ZEBRAsileira

Os holandeses não sabem o mal que causaram ao país. Aqui é assim, num minuto você é brasileiro, no outro deixa de ser. Acho que somos assim pelo fato de o futebol, e até o esporte de uma maneira geral, ser uma das poucas esferas que o Brasil domina. Não admitimos perder no futebol, porque ele é basicamente uma das poucas coisas que nos resta. Algo que inevitavelmenete nos fornece alegria. A nossa religião.
Sim, sim, todos vão dizer que a derrota era prevista, que mais cedo ou mais tarde iam faltar as opções de substituição e que a expulsão do Felipe Melo era iminente. Mas cá entre nós, agora é muito fácil apontar um culpado.
Cada brasileiro é um técnico de futebol. Por isso, todos se sentem à vontade para escalar a seleção ideal. Uns dizem: "faltou o Neymar e o Ganso". Na minha opinião faltou otimismo de todos nós.
E o pessimismo já começou à quatro anos atrás, quando Dunga assumiu a seleção. Todos diziam que ele era incapaz de assumir a responsabilidade. Depois, apesar da vitória na Copa das Confederações, a escalação escolhida por ele dividiu opiniões. Pra piorar o Dunga caiu na besteira de xingar os jornalistas e fechar alguns os treinos para a imprensa. Claro, mexeu com a imprensa, pediu pra ser morto. Confesso que foi por esse motivo que ele conquistou minha simpatia. Não é qualquer um que tem peito para enfrentar a toda-poderosa-rede-globo-de-televisão.
A campanha anti-Dunga chega agora ao seu auge, com a eliminação. Sinceramente não sei do que estamos reclamando, ninguém acreditava mesmo. Todo mundo estava torcendo contra. Não acho justo agora criticar quem já está destruído. É o mesmo que chutar cachorro morto.
Quando o Brasil foi eliminado na Copa de 2006, com o gol de Henrry, vimos jogadores apáticos, pouco preocupados se tinham ganhado ou perdido. Dava pra contar nos dedos os que choraram. Apesar da sensação de dèjá vu, o Dunga foi muito feliz na medida em que resgatou o verdadeiro espírito da seleção brasileira. Aquele sentimento genuíno, de jogar futebol pelo futebol, pelo país, pelos brasileiros. Alguns jogaram mesmo sentindo dor. E dessa vez foi nítida a tristeza deles. Mas na Copa da África, como tantas outras grandes seleções, justa ou injustamente, o Brasil vai pra casa. Era "nação contra nação, e reino contra reino", e, no confronto, perdemos.
Existe vida após derrota? Só o tempo dirá. Agora nos resta recolher os cacos, levantar a cabeça e preparar a nossa Copa. Em 2014 será o Brasil na vitrine do mundo. Dez entre dez brasileiros acreditam que ganharemos a próxima. Quem pode saber? Futebol é loteria, como diz meu pai.
Fala sério pai, futebol tá mais pra jogo do bicho: só deu zebra!
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