A garota estava andando pelas ruas frias e úmidas do centro da cidade. Às sete e meia da manhã ela já andava. Gostava de observar o movimento das pessoas que passavam apressadas para o trabalho. Ela porém não tinha pressa. Há muito tempo não andava sem rumo, sem direção definida. Cortava pelas ruas sempre parando em cada esquina para decidir pra que lado seguir. Os camelôs já estavam se preparando para mais um dia de batalha. As lanchonetes já estavam abertas e abarrotadas de gente faminta. Os prédios comerciais começavam sua jornada empresarial. A cidade iniciava seu movimento e nunca parava. A garota também não. Somente nas esquinas, para decidir qual direção tomar.
Muitas lojas ainda estavam fechadas e isso a decepcionava. Ela queria movimento, queria ver gente. Parou entorpecida na frente da escola de música, mas não ouviu nenhum som vindo de lá. Passou por um grupo de homens que a olharam com malícia. Ela era bonita e isso chamava atenção onde quer que ela fosse. Os poucos transeuntes dos lugares ainda desertos da cidade olhavam para ela. Isso a irritava. Não queria ser vista, queria ver. Quando chegou ao largo principal, finalmente ouviu vozes. Um jornaleiro anunciava ao microfone seus produtos. Uma mulher mal vestida cantarolava uma canção religiosa, desafinando a plenos pulmões. O ruído das pessoas subindo e descendo as escadas do metrô aumentava. Veículos passavam zunindo cada vez mais alto. E a garota observava tudo.
Adorava tipos. Analisava cada um minuciosamente, como se fossem seu estranho objeto de estudo. Às vezes nem parecia pertencer àquela cidade, pois andava como um turista perdido, girando a cabeça o tempo inteiro para todos as direções como se quisesse captar cada cor, cada indivíduo, cada movimento. Como quem procura onde está.
Sempre pareceu estranho para ela que ninguém a notasse da mesma forma. Apesar de ser bonita e atrair naturalmente atenção pelo seu tipo físico, as pessoas não olhavam com cuidado. Ela não julgava impossível a análise, era mais ou menos fácil de ler. No entanto, ninguém a lia. Mas ela lia a todos. A balança das percepções estava totalmente desequilibrada. Sempre fora assim.
Ela resolveu fazer o caminho de volta. Não queria mais ver ninguém. Mudava de idéia muito facilmente, quase como uma criança. A instabilidade a fazia parecer até mesmo para os mais desatentos um labirinto de paredes móveis. Essas paredes mudavam de posição continuamente para despistar qualquer aventureiro desavisado que resolvesse adentrar no seu mundo. Essa era a regra principal, iludir. Ela fazia isso o tempo inteiro, mesmo sem se dar conta disso. Era uma ilusionista nata. Os poucos que percebiam a armadilha logo escapuliam. E ela ficava só.
Era estranha, mas de uma estranheza atraente. Tinha o dom de atrair as pessoas para si, mas sempre estava sozinha. Ela era muito complicada. Complicada demais. Sentia-se deslocada, quando na verdade os deslocados sempre foram os outros.
Ela agora andava pelas ruas do centro da cidade com aquele ar de alguém que contou uma piada que não fez ninguém rir. Ela era essa piada. Pois os parcos risos que conseguia arrancar da platéia eram apenas superficiais. Tudo em si era muito superficial. E ela detestava isso com todas as suas forças. Amava detectar os detalhes mais profundos de cada ser. Era seu jogo inconsciente. Observava, atraía e iludia. Ela se odiaria se soubesse que fazia isso. Mas ela fazia.
Coisa interessante é que ela raramente pedia permissão. Fazia as coisas que lhe desse vontade. E somente essas. Ninguém poderia forçá-la a nada que não quisesse de verdade. Ninguém poderia fazê-la mudar de idéia se ela não estivesse disposta a isso, mesmo que ela tendesse a mudar de idéia facilmente. Ela só fazia o que queria.
E naquele momento ela mudou de direção novamente pois estava farta daquela caminhada sem rumo. O labirinto estava perdido em seu próprio labirinto.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
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Não sei em qual parede do seu labirinto este comentário irá encontrá-la. Se for uma das descartáveis, desconsidere. Se obrigá-la a prestar atenção, olhar o que está escrito, para então desviar-se, é o seguinte: lembre-se de escrever alguma coisa sobre o Flamengo lá pro Nação Maior.
ResponderExcluirSRN
Antônio Máximo