quarta-feira, 28 de julho de 2010

Pronta pra sair

Me lembro de quando eu tinha só 6 anos e pensava em fugir de casa. Pegava a lancheira do colégio, meus brinquedos preferidos e colocava tudo dentro da mochila. Ameaçava sair pelo portão, mas nunca saí. Eu sempre parava antes e pensava em como poderia sobreviver só com os meus brinquedos. O meu lanche logo acabaria e só me restariam os brinquedos. Nessa época eu já era extremamente racional... Eu também tinha medo do que havia lá fora. Tinha medo do desconhecido. Então eu sempre desistia do plano. Voltava para meu quarto e guardava tudo dentro do baú, sem que ninguém ao menos desconfiasse de minhas reais intenções. E durante muito tempo eu vivi assim, só conhecia o quintal da minha casa.

Olhando agora acho que talvez isso não tenha mudado. Continuo conhecendo apenas o quintal. Jamais ultrapassei o portão. Continuo postada diante dele, com o rosto espremido entre as grades, vendo a vida acontecer lá fora. Com a mochila nas costas, está tudo pronto pra partir. Só falta a coragem.

Eu sempre sonhava com o que eu seria quando crescesse. Eu queria ser importante, alguém grande, que realmente valesse a pena ser lembrada. Mas reavaliando agora, essas espectativas de alguma forma se desprenderam e eu nem sei dizer em que momento isso aconteceu. Só sei explicar quem eu já fui. Mas não tenho idéia de quem sou ou de quem eu quero ser agora. Que conclusões tiro disso? Tudo, absolutamente tudo esvaece. Foi assim com os meus sonhos.

Algumas das minhas frustrações provém do fato de eu não saber meu lugar. Sempre me senti deslocada no mundo, como se não precisasse estar aqui. Como se não fizesse questão nenhuma disso. Não tenho nenhum dom especial. Nenhuma habilidade extraordinária que possa ser útil a humanidade. Só sei ler. Sou uma grande leitora que devora livro após livro na esperança de absorver algum traço interessante de suas histórias para minha própria vida. Desesperadamente desejosa de encarnar esses personagens, sejam eles quais forem. Aceitaria ser o mais miserável deles, desde que sua história produzisse reviravoltas na minha. E quando termino de ler um livro, ao invés de me sentir satisfeita pela distração, sinto-me engolida por um vazio sem igual. Transformei os livros em escudos e continuo me escondendo atrás deles como se a minha existência realmente dependesse disso.

Sempre que penso nisso percebo que talvez essa não seja eu. Talvez eu não queira me basear somente nas histórias alheias. Eu preciso de ferramentas para escrever minha própria história. Preciso de um espelho mágico para saber quem eu realmente sou. Sem essa informação eu jamais avançarei o portão. Jamais encontrarei o caminho para minha própria vida.

Não posso mais viver assim. As vezes sinto-me sufocada sem conseguir respirar. Não posso mais sorrir sem sentir vontade ou só por estar acostumada à isso. Não posso me prender à antigas tradições que me consomem lentamente. Talvez ninguém esteja interessado nisso, mas vivi presa muito tempo e agora desejo sair. Agora estou aqui, mais uma vez em frente ao portão, mas dessa vez vou embora. Estou gritando e chutando para que me deixem ir. Se ninguém abrir eu pularei o muro. E se este for alto demais, cavarei por baixo. Não me importa se lá fora há coisas ruins. Eu quero mesmo cair. Mas também quero me levantar. Afinal, são nossas quedas que produzem as alavancas.

E espero sinceramente que antes de encontrar o caminho certo eu possa vaguear um pouco por aqueles mais duvidosos. Porque muito pior do que viver confinada em um espaço restrito é perder a aventura das incertezas diárias.

5 comentários:

  1. Também já me escondi muito dos livros!
    Hoje abri as cortinas para a vida, as diferenças abismais que me separam dos outros...
    Não acreditar ainda é acreditar! Crescer tem um preço,né! Chato, chato, mas fazer o que:
    Talvez sua habilidade seja de repassar todos os conhecimentos que você conseguiu através dos livros!
    Bjs

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  2. Essa confusão é resolvida pelo velho Nietzsche: Torna-te quem tu és. Viva a vida, aproveite cada momento, seja hedonista. Triste ou feliz, segura ou incerta, boa ou ruim, a vida é uma só e é para ser vivida tal como ela é e com a maior intensidade poissível. Os momentos são unicos em sua existencia. Aproveite-os pois eles vão passar. Bons ou ruins eles passam. Você é o que acredita e quer ser. Nada pode deter o humano, só ele mesmo.

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  3. Não me arrependo de ter dito que você tem o "dom" pra blogs. Meus parabéns, gostei muito do texto!

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  4. muito bom mesmo ale
    sei la vc parece q le a minha mente
    ou vc sabe muito
    ou entao oq eu sinto nao
    é tao raro assim
    vc tbm poderioa fazerr pscologia
    ia se dar bem
    kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    muito bom memso
    meus parebens!!!!!!

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